Tem um amigo 'friend bomber?' Entenda como afeto repentino e cobranças excessivas podem acabar mal
07-20 HaiPress

Demonstrações exageradas de afeto e não respeitar limites podem ser 'friend bombing' — Foto: Shutterstock
RESUMO
Sem tempo? Ferramenta de IA resume para vocêGERADO EM: 16/07/2026 - 19:31
"Friend Bombing": Quando a Amizade Exagerada Vira Desconforto
O "friend bombing" é um comportamento que envolve demonstrações exageradas de afeto no início de uma amizade,seguido por um desaparecimento repentino. Semelhante ao "love bombing",mas sem conotação amorosa,esse comportamento pode gerar culpa e desconforto na vítima. A psiquiatra Tânia Ferraz Alves explica que,apesar de parecer positivo,o "friend bombing" desrespeita limites e pode ser praticado por pessoas inseguras. Para evitar isso,a psicóloga Marcely Quirino recomenda buscar amizades baseadas em reciprocidade e respeito.O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
Os laços entre a cantora Maricel Ioris,de 47 anos,e uma então nova amiga começaram numa festa. As duas foram apresentadas,tempos atrás,durante o Festival de Teatro de Curitiba,e a conexão foi imediata. “Nos conhecemos por um amigo em comum,conversamos bastante e,a partir deste dia,ela me chamou para outras festas”,relembra. “Nos falávamos e nos víamos quase todos os dias. Tínhamos muitas coisas parecidas,ela também é mãe,como eu,conheceu minha família,viajamos juntas. Era uma pessoa muito carismática,me elogiava e me botava para cima.”
No entanto,a história mudou com o sumiço repentino da companheira. As mensagens cessaram com a velocidade que surgiram. “Achei estranho,mas coincidiu com o fato de ela começar a namorar. Senti um vazio grande. Era alguém de quem gostava muito,foi algo sem explicação”,lamenta Maricel. Embora já tenha superado o ocorrido,ficou a lição de que a ex-amiga não teve cuidado ou responsabilidade afetiva. “Senti-me culpada,como se tivesse feito algo errado,mas depois percebi que era um padrão ela agir assim. Eu deixei de ter utilidade.”

A cantora Maricel Ioris — Foto: Arquivo pessoal
O tal padrão citado por Maricel se encaixa no “friend bombing”,comportamento em que uma pessoa se aproxima de outra com demonstrações exageradas de afeto logo no início da construção de uma amizade e,de repente,some. Bem parecido com o “love bombing”,mas sem conotação amorosa. “Quando há conexão,é natural ter uma proximidade,mas o ‘friend bombing’ vai além. O sujeito oferece presentes,mimos,cobra respostas imediatas,tenta isolar o alvo de outros amigos e não respeita limites e nem o tempo natural das coisas”,explica a psiquiatra Tânia Ferraz Alves,do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Por se apresentar como algo positivo,a prática raramente é questionada,gerando mal-estar e nenhum diálogo entre as partes. “Você se culpa por se sentir incomodado. Como é uma intensidade vinda no pacote do carinho,não reclama”,continua ela. Tânia afirma que o perfil do “friend bomber”,ao contrário do “lover bomber”,nem sempre é mal-intencionado: por vezes,é alguém frágil e inseguro,com dificuldade de regulação emocional. “São pessoas com medo de abandono e que,ao mesmo tempo,praticam um sumiço ‘punitivo’,para o outro sentir falta e culpa. Isso me lembra as amizades da pré-escola: ‘Se não concorda comigo,não gosta mais de mim,não é minha amiga’.”
Continuar Lendo
A promotora de eventos Camila Vernier,de 34 anos,de São Paulo,passou pelo bombardeio de atenção com um mix de interesses nada amigáveis. Ao ser contratada para um evento em maio,percebeu a aproximação repentina de uma colega de trabalho. “Já nos primeiros dias ela me chamava de amiga,dizia que eu era muito legal. Depois,me deu vários presentes,creme para as mãos,copo térmico”,conta. Desconfiada,Camila suspeitou de que tanto afeto vinha em razão de sua proximidade com a supervisora do projeto. “Como não dei tanta atenção,ela me excluiu e bloqueou de todas as redes. Nunca mais mandou mensagem.”

A promotora de eventos Camila Vernier — Foto: Arquivo pessoal
E como se blindar do “friend bombing”? Para a psicóloga Marcely Quirino,o equilíbrio está em compreender que abertura emocional e intimidade não são sinônimos. “As amizades mais consistentes não nascem da intensidade,mas da reciprocidade vivida ao longo do tempo”,pontua. Relações se tornam seguras,acredita ela,porque atravessam o tempo,respeitam os limites e sobrevivem às diferenças,sem exigir que o outro deixe de ser quem é para o vínculo continuar existindo. E o mais importante,garante Marcely,é compreender como o amigo da vez faz você se sentir. “Ele contribui para o meu bem-estar ou gera sofrimento,culpa ou perda da minha autonomia? Relações saudáveis não exigem disponibilidade constante e nem fazem da discordância,ou necessidade de espaço,uma ameaça”.
Amigos,amigos,carências à parte.