Crimes digitais contra crianças e adolescentes migram da madrugada para a tarde durante as férias escolares
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Crimes digitais contra crianças e adolescentes migram da madrugada para a tarde durante as férias escolares — Foto: Reprodução
RESUMO
Sem tempo? Ferramenta de IA resume para vocêGERADO EM: 19/07/2026 - 20:52
Aumento de crimes digitais contra jovens em SP durante férias escolares
Durante as férias escolares,crimes digitais contra crianças e adolescentes em São Paulo migraram da madrugada para a tarde,com relatos diários saltando de cinco para até 11 casos,segundo a Polícia Civil. Investigações apontam meninos de 12 a 21 anos como principais autores,atuando em plataformas como Discord. O aumento da crueldade contra animais também foi destacado,motivando uma campanha global por medidas de combate.O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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Dados exclusivos do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad),da Polícia Civil de São Paulo,indicam uma migração dos crimes na internet contra crianças e adolescentes da madrugada para o período da tarde durante as férias escolares. Segundo a delegada Lisandrea Salvariego,responsável pelo órgão — que mira ilegalidades on-line cometidas por todo o Brasil e também no exterior —,os agentes costumavam detectar uma média de cinco casos diários de indução a automutilação,suicídio ou estupro envolvendo menores,quase sempre entre o fim da noite e as primeiras horas do dia. De 15 de junho a 15 de julho,em meio à interrupção das aulas — antecipada em alguns colégios por conta da Copa do Mundo —,a quantidade de registros não apenas dobrou,como mudou de horário.
— Quando não estamos nas férias,percebemos esses crimes principalmente na madrugada. Agora,eles também acontecem durante a tarde. São nove,dez,11 casos diários,e quase sempre de dia. Muitos pais estão trabalhando,e as crianças ficam com outras pessoas,que muitas vezes não têm a dimensão do que está acontecendo no ambiente digital — explica Salvariego.
Um dos saltos mais expressivos deu-se nas ocorrências envolvendo crueldade contra animais. No mesmo período do ano passado,o Noad flagrou cinco conteúdos de maus-tratos correndo a internet,inclusive junto a crianças e adolescentes. No recorte atual,foram pelo menos 15 cenas similares detectadas pelo núcleo.
— O que mais chama atenção é o prazer que eles demonstram. Eles riem durante toda a transmissão,e a plateia pede novas agressões. Existe prazer no sofrimento do animal. A maioria dos animais envolvidos nos crimes,cerca de 90%,é filhote de gato — diz a delegada.
O avanço desse tipo de crime no ambiente digital levou ao lançamento de uma campanha global que reúne organizações,especialistas e ativistas para pressionar plataformas digitais a reforçarem o combate a conteúdos que exibem ou incentivam a violência contra animais e defender mudanças na legislação. Lançada pelo Instituto Ampara Animal,a iniciativa inclui uma petição internacional que busca reunir um milhão de assinaturas,disponível na plataforma Change.org (basta buscar o termo “Animal safety” na página).
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‘Eles querem ser vistos’
As investigações ajudam a desenhar o perfil dos principais autores identificados até agora: a maioria é formada por meninos entre 12 e 21 anos. Embora as transmissões reúnam dezenas e,em alguns casos,até centenas de participantes,ainda não há um detalhamento consolidado sobre quem são esses espectadores.
A linguagem utilizada nas conversas,porém,oferece pistas importantes. As abreviações e o vocabulário que emergem no chat,por exemplo,indicam uma presença maciça de adolescentes. Grande parte dessas transmissões ocorre no Discord,plataforma de comunicação surgida no universo dos games e com ampla participação de jovens. Os responsáveis pelas lives criminosas criam servidores privados e divulgam os links em diferentes redes sociais,ampliando o alcance.
— Eles (os agressores) querem ser vistos. Já identificamos transmissões com plateias de até 800 pessoas — conta a chefe do Noad.
O avanço dessas comunidades levou agentes do núcleo a elaborar um relatório técnico com cerca de 200 páginas,encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF). O documento embasou a abertura de um inquérito civil contra o Discord. A expectativa da Polícia Civil paulista é que a plataforma firme um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para fortalecer seus mecanismos de moderação.
— Hoje esses grupos atuam em diferentes horários,alcançam crianças e adolescentes de todo o país e até do exterior. A prevenção passa por acompanhar não apenas o tempo de tela,mas também os ambientes digitais que esses jovens frequentam — orienta Salvariego.
Procurado pelo GLOBO,o Discord não retornou o contato. Em outras ocasiões,a plataforma reiterou estar “comprometida em aprimorar seus processos internos”.
Das redes aos fóruns
As investigações do Noad,pioneiro no país,envolvem grupos que atuam em plataformas digitais e são associados a práticas como indução à automutilação,incentivo ao suicídio,exploração sexual de adolescentes,estupro virtual,apologia à violência extrema e crueldade contra animais. Os policiais lotados na unidade vasculham 24 horas por dia ambientes como redes sociais,fóruns,aplicativos de mensagens e plataformas de jogos em busca de indícios de crimes que miram sobretudo menores.
— A investigação é em nível mundial. Temos até mesmo alvos fora do país — resume a delegada titular.
Desde a criação do núcleo,em novembro de 2024,foi formado um banco de dados com mais de 1.900 alvos em investigação,que já resultou na prisão ou apreensão de mais de 600 pessoas. O trabalho também evitou que centenas de vítimas fossem alcançadas por esses grupos. De acordo com o próprio Noad,406 crianças e adolescentes foram salvos de situações de indução à automutilação e ao suicídio,além de mais de mil animais resgatados de episódios de violência.
O trabalho que deu origem ao Noad começou após uma onda de ataques e ameaças contra escolas registrada em 2023. Um dos casos ocorreu em 23 de outubro daquele ano,quando um adolescente de 16 anos abriu fogo na Escola Estadual Sapopemba,na Zona Leste paulistana,matando a estudante Giovana Bezerra da Silva,de 17 anos,e deixando outras três pessoas feridas.
A partir dessa ocorrência,a Polícia Civil passou a monitorar grupos on-line que incentivavam ataques a escolas. O que parecia ser uma investigação voltada a um único tipo de crime,revelou uma rede muito mais extensa de violência praticada e compartilhada no ambiente digital.
— Não imaginávamos que encontraríamos um universo tão amplo de crimes — reconhece Lisandrea.
O Noad,da Polícia Civil de SP,mira casos como indução a automutilação contra crianças e adolescentes