Close

Entrevista: disputas no bolsonarismo não vão devem levar a um 'rompimento completo' do bloco, defende pesquisador

07-20 HaiPress

Os irmãos Carlos,Flávio e Jair Renan em evento na Paulista,enquanto Michelle discursa: família vem se desentendendo na formação de palanques e trocado farpas e indiretas — Foto: Miguel Schincariol/AFP/6-4-2025

RESUMO

Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

GERADO EM: 17/07/2026 - 17:27

Livro analisa divisões e tensões estratégicas na extrema direita brasileira

No livro "As Vanguardas da Intervenção",Marcelo Alves dos Santos Junior,da PUC-Rio,analisa as subculturas da extrema direita e suas divisões internas,destacando que as disputas no bolsonarismo não indicam necessariamente um rompimento completo do bloco. O autor explora como a economia da atenção digital impulsiona essas tensões,enfatizando que os conflitos são estratégicos e não implicam um desmantelamento imediato.

O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO

Professor da PUC-Rio e diretor do Instituto Democracia em Xeque,Marcelo Alves dos Santos Junior enfatiza ao comentar brigas recentes protagonizadas por integrantes da família Bolsonaro: o campo político que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018 não é um grupo coeso,e as subculturas que o formam sempre estiveram em disputa na extrema direita,seja abertamente ou não. O tema é abordado no livro "As Vanguardas da Intervenção: O Extremismo Digital e o Ataque às Instituições Democráticas no Brasil" (Editora Mauad X),lançado no mês passado e no qual Santos Junior analisa as cisões internas e os discursos antidemocráticos que levaram ao 8 de janeiro de 2023 a partir de registros coletados nas redes sociais.

Para o pesquisador,os rachas mais recentes,assim como os observados ao longo do governo Bolsonaro,se conectam à lógica das plataformas digitais,caracterizada por uma economia da atenção,mas agora têm sido potencializados pela dificuldade do senador Flávio Bolsonaro,pré-candidato do PL à Presidência,em ocupar o papel do pai para fazer com que as críticas de aliados não sejam tão contundentes — Flávio vive uma crise com a madrasta,a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Na avaliação de Santos Junior,porém,as disputas por hegemonia no bolsonarismo não necessariamente vão se transformar no rompimento completo desse bloco. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Marcelo Alves dos Santos Junior é rofessor da PUC-Rio e diretor do Instituto Democracia em Xeque — Foto: Divulgação

O senhor descreve a extrema direita como um campo fragmentado,composto por "subculturas políticas" e não por um bloco coeso. Como esse conceito ajuda a entender essas disputas que ocorrem hoje?

O processo de impeachment da Dilma Rousseff construiu uma identidade política negativa. Era uma ideia contrária a algo,as pessoas se juntam por isso,mas ainda não havia um elemento de identidade coletiva. Depois,há a nítida construção de uma liderança política para dar coesão a esse grupo,que,de alguma forma,se organiza em torno de Jair Bolsonaro,pelas características e visibilidade que ele já tinha. Em 2019,com ele eleito,se inicia um processo bastante conturbado,em que o governo não tem uma estrutura partidária e burocrática para organizar militância e distribuir cargos. O livro explora como já antes,durante e depois do governo,essas “subculturas” (subgrupos) estão em disputa pela hegemonia do campo. Muito embora tende a se tratar o bolsonarismo como um grupo coeso,na verdade,eles sempre foram heterogêneos.

E como se organizam?

Esses diferentes grupos se organizam em subculturas,entendidas enquanto práticas,repertórios e domínio de linguagem. Eles se apresentam,muitas vezes,discursivamente em torno de termos e símbolos. O grupo do MBL,por exemplo,pelo menos depois de 2018,quando retirou o apoio a Bolsonaro,sempre se caracterizou por uma disputa aberta na extrema direita. Muitos grupos hoje tentam disputar com o bolsonarismo,mas sem uma crítica aberta. O MBL,por sua vez,definiu uma postura anti-bolsonarista muito forte pela hegemonia do campo. Todo esse percurso faz com que a extrema direita seja um movimento fragmentado,que depende de uma figura de força e de coesão,que o bolsonarismo dava até certa medida,mas que o Flávio,hoje,não consegue dar. O dissenso faz parte da política,mas,na esquerda,isso se representa em movimentos sociais,partidos e tendências dentro das siglas a partir de correntes bem organizadas. No caso da direita,as plataformas digitais passam a ser apropriadas para essa disputa de capital político e midiático dentro do campo.

O livro menciona "controvérsias encenadas" que parecem rupturas definitivas,mas depois são remediadas fora do espaço público. Por que o senhor acredita que essas brigas públicas cumprem uma função estratégica de disputa por atenção midiática?

Quando Bolsonaro foi presidente,houve uma expectativa de que não seria mais possível que esse bloco político se apresentasse enquanto um bloco de governo relativamente coeso. Que,pelas várias brigas,esses atores iriam cada um para um lado e iriam disputar as eleições de forma mais aberta. No entanto,é preciso levar em consideração que esses atores nascem nas plataformas digitais,ganham relevância nesse ambiente e conhecem profundamente as dinâmicas da economia da atenção. Não se pautam necessariamente pela lógica da imprensa ou somente pela lógica dos meios de comunicação de massa. Eles,de fato,conhecem intimamente como funciona o algoritmo e a lógica das redes. Essas brigas se dão abertamente,com um xingando o outro,com caricaturas e apelidos. É importante ter o entendimento de que elas acontecem,são sérias e representam rachas e disputas por hegemonia,mas que não necessariamente ou diretamente elas vão se transformar no rompimento completo desse bloco.

Livro aborda cisões internas na extrema direita brasileira e discursos antidemocráticos que levaram ao 8 de janeiro de 2023 a partir de registros coletados nas redes — Foto: Divulgação

Recentemente,dois dos principais nomes do bolsonarismo,o deputado Nikolas Ferreira e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro,passaram a ser criticados por não darem um apoio mais contundente ao Flávio. É possível relacionar essas situações com o histórico de rachas?

Há uma tentativa de coesão em favor da pré-candidatura do Flávio Bolsonaro,e isso acontece com certo sucesso. Mas estamos atravessando um processo de disputa aberta e negociações que vai levar a uma nova hegemonia de extrema direita,direita e parte do centro. O Jair Bolsonaro continua sendo a liderança desse campo,e tenta manter esse controle na família. Se trata de timing: “será que vou disputar a hegemonia nas urnas já agora em 2026 ou 2030?”. A leitura que o partido Missão e o Renan Santos fizeram é de que é preciso construir essa divergência e já se apresentar como um candidato anti-Bolsonaro. Outros atores entendem que o abandono absoluto,direto,no rompimento com Bolsonaro,pode gerar um “efeito Joice Hasselmann e Alexandre Frota”. O Nikolas,é definido por bolsonaristas nas redes como um “intergaláctico”,categoria para nomear atores que se posicionam em favor do bolsonarismo,mas estão tentando disputar o caminho próprio. Esse grupo contém,além dele,o Ricardo Salles. Há outro bloco que é remanescente de um certo “olavismo”. Já a Michelle,muito embora tenha alguma ligação com parte desses atores políticos,opera em outra lógica. É um processo religioso. Não consigo encaixar a Michelle nas subculturas que diagnostiquei no livro porque ela faz parte de outra cultura,mais religiosa e evangélica do que política.

O senhor vê a possibilidade dela passar a capitanear o bolsonarismo ou de outro nome fora da família surgir para dominar esse campo político?

Todos os atores fazem a análise política de que você não pode disputar com uma família. Uma família sempre vai tentar coordenar a lógica dentro da própria família,isso foge da dinâmica política. Então,em algum momento,é preciso trocar a família da hegemonia da extrema direita,só que esse processo precisa acontecer com o mínimo de ruptura possível para que se mantenha os votos. É mais ou menos esse cálculo e esses movimentos que os atores vão tentar a fazer,de um afastamento que não seja lido publicamente enquanto um rompimento,a mesma medida que a própria as condições políticas para família Bolsonaro liderar e ter hegemonia do bloco vão se enfraquecendo e que isso passa a ser menos lido também como uma ruptura.

O Flávio costuma ser criticado por não ser o membro mais ideológico do bolsonarismo. Ele mesmo,tem tido como estratégia se colocar como o mais “moderado”. Como avalia isso?

Muitos atores surfam na onda bolsonarista sem se preocupar com a disputa pela construção de maioria no parlamento. O movimento contra qualquer tipo de alinhamento ao Centrão,nesse caso,sempre foi muito forte. O que a população espera é uma retomada da campanha de 2018,e muita gente continua esperando isso do Flávio. Hoje,ele precisa balancear esses diferentes nichos que têm expectativas diferentes na campanha. Isso se dá dentro da própria família. O Flávio tem muita dificuldade de ocupar o papel que o Jair tinha de atrair o apoio e fazer com que as críticas não fossem tão contundentes,principalmente perto das eleições.

O senhor aponta no livro que,a partir de 2018,os militares passaram a usar as plataformas digitais para ter mais influência,na medida em que expuseram cisões internas e dificuldade na coordenação de ações. Como isso se relaciona com a tentativa frustrada de golpe no 8 de Janeiro?

Nas redes,dentro dos nichos militares,havia células intervencionistas. Inicialmente,entre 2014 e 2017,eles eram posicionados por uma candidatura militar liderada pelo Bolsonaro,mas depois mudam de posicionamento. Naquele momento,começa a se organizar um grupo que é abertamente contrário ao Bolsonaro,que passa a se mobilizar em torno de outras figuras militares,como os generais Augusto Heleno e Braga Netto. Esse processo se dá até 2021. Depois,quando o Bolsonaro faz aquele discurso contra o Alexandre de Moraes (7 de setembro),eles entendem que o bolsonarismo estaria “voltando às raízes” com um possível processo de rompimento. Em 2022,as críticas já estão mais arrefecidas,controladas,esperando que,caso o Bolsonaro perdesse as eleições,teria esse movimento intervencionista a partir do segundo turno. No começo de novembro,há esse alinhamento político quando as pessoas vão para a porta dos quartéis. No entanto,volta a haver desavenças com a disputa de quem seria a liderança dos acampamentos,e esses grupos voltam a se dividir,e chegam em dezembro completamente brigados,já com disputas em aberto nos acampamentos de Brasília.

E o que faltou para o golpe dar certo?

Os atores não se organizaram de forma orgânica. Existia uma arquitetura vertical de poder,que organiza,distribui funções,expectativas e recursos,e existia uma estrutura de mediação entre a cúpula e a base. É um processo bastante controverso,com bastante dissenso. Mas é importante entender que há uma instrumentalização. Diferentes trechos do inquérito da Polícia Federal mostram como os militares de alta patente vinculados ao Palácio do Planalto estão direcionando os atos,imprimindo cartazes,definindo palavras-chave. As condições políticas e institucionais,naquele momento,simplesmente não sustentavam uma ação mais contundente das próprias Forças Armadas. Havia uma disputa política-institucional,e um alinhamento da elite política,militar e financeira que não favorecia um movimento de ruptura e que reduziu as condições concretas para um golpe bem-sucedido. Isso levou ao ataque atabalhoado do 8 de janeiro,mesmo elaborado durante mais de um mês,acontece como uma última cartada,quando o novo governo já está até empossado.

Declaração: Este artigo é reproduzido em outras mídias. O objetivo da reimpressão é transmitir mais informações. Isso não significa que este site concorda com suas opiniões e é responsável por sua autenticidade, e não tem nenhuma responsabilidade legal. Todos os recursos deste site são coletados na Internet. O objetivo do compartilhamento é apenas para o aprendizado e a referência de todos. Se houver violação de direitos autorais ou propriedade intelectual, deixe uma mensagem.
© Direito autoral 2009-2020 Viagens a portugal      Contate-nos   SiteMap