Azzas: como as tensões escalaram entre os sócios do maior grupo de moda da AL
05-20 HaiPress

Roberto Jatahy e Alexandre Birman — Foto: Divulgação
RESUMO
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Conflito Judicial entre Líderes Ameaça Futuro da Azzas 2154
A disputa judicial entre Roberto Jatahy e Alexandre Birman sobre o comando da Azzas 2154,grupo que reúne Arezzo e Soma,é o ápice de uma fusão problemática. A união,que criou um gigante do varejo com R$ 12 bilhões em faturamento,falha por estilos de gestão conflitantes e personalidades irreconciliáveis. A Azzas perdeu R$ 6 bilhões em valor de mercado e discute uma separação inevitável.O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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A disputa judicial entre Roberto Jatahy e Alexandre Birman sobre o comando da Reserva,deflagrada na semana passada,foi o clímax de uma sucessão de fissuras na Azzas 2154 que,já nos primeiros meses de sociedade,ainda em 2024,ameaçavam a união de Arezzo e Grupo Soma. Descrito por fonte próxima à companhia como “um MBA de tudo o que não fazer em uma fusão”,o maior conglomerado de moda da América Latina tem marcas poderosas como Farm,Animale,Schutz e Hering,mas tropeça em estilos de gestão antagônicos e,sobretudo,em personalidades consideradas irreconciliáveis por quem acompanha a empresa. Não à toa,menos de dois anos após o “casamento”,a Azzas vende e lucra menos do que antes,já perdeu mais da metade do seu valor na Bolsa e discute um divórcio que parece inevitável.
Procurados pela reportagem,Jatahy,Birman e Azzas 2154 não quiseram comentar.
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Anunciada em fevereiro de 2024 e concluída seis meses depois,a fusão criou um gigante com R$ 12 bilhões de faturamento e 34 grifes. O plano era usar a escala para capturar bilhões em sinergias e acelerar o apetite por aquisições. De quebra,a união daria musculatura a negócios que vinham sendo cada vez mais desafiados por plataformas como Shein.
O primeiro contato entre Birman (herdeiro e CEO da Arezzo) e Jatahy (CEO do Soma) aconteceu em 2021,quando as companhias disputaram a Hering. O Soma levou a marca por R$ 5,1 bilhões,mas o relacionamento se manteve amistoso. Em 2023,segundo fonte a par das conversas,Birman começou a abordar Jatahy com a ideia da fusão.
O Soma resistiu,mas cedeu quando,na última semana daquele ano,a promulgação da Lei das Subvenções (14.789/2023) ameaçava comer um pedaço do seu lucro. Isso porque a legislação determinava a tributação de incentivos fiscais,aos quais o Soma estava mais exposto que a Arezzo.
Fusão ou aquisição?
Segundo um executivo que trabalhou ao lado de Jatahy e Birman,o “namoro muito rápido” é uma das razões dos problemas que se seguiram,já que os dois lados deixaram de observar alertas que surgiriam em processo mais longo.
A fusão foi selada seguindo o valor das empresas na Bolsa,com os acionistas da Arezzo ficando com 54% da Azzas e os do Soma com os 46% restantes. Birman ocupou o cargo de CEO,enquanto Jatahy assumiu o segmento de vestuário feminino — essencialmente,as marcas que eram do Soma,com exceção da Hering,que deu origem a uma nova divisão,de vestuário básico.
Antes mesmo de o negócio ser concluído,os estilos começaram a se chocar. O primeiro embate se deu na escolha dos executivos do quadro da Azzas 2154. Jatahy defendia avaliação externa dos nomes,mas Birman insistiu que,como CEO,caberia a ele escolher o “C-Level”,segundo fontes.
Enquanto quem trabalhava no setor descrevia Birman como “centralizador” e “autoritário” (ou “intenso”),Jatahy parecia mais aberto a delegar. Segundo interlocutores,o grau de assertividade de Birman surpreendeu acionistas do Soma,deixando neles a impressão de que a Arezzo fazia “aquisição maquiada de fusão”.
O clima seguiu tenso,a ponto de a Integration Consulting,contratada para o processo,recomendar que as empresas não seguissem em frente com o negócio. O próprio Jatahy — que,segundo fonte,demonstrava personalidade volúvel — chegou a propor a Birman que a fusão não fosse concluída,mas multas contratuais inviabilizaram a desistência.
— Alexandre só aceita que as coisas saiam do jeito dele,e Roberto cedeu em uma série de pontos,aceitando condições que deram ao outro posição muito privilegiada. Embora Roberto tenha o comando do vestuário feminino,quem propõe o orçamento da empresa é o CEO — disse executivo que trabalhou com os dois.
De fato,o desenho da governança — inclusive a designação do Birman como CEO — foi acordado entre as duas partes. Além disso,a família de Birman tem cerca de o dobro da participação acionária da família de Jatahy na Azzas.
Mesmo a contragosto,a fusão foi concluída em agosto de 2024,com chuva de papel picado e foto no púlpito da B3. Mas os problemas seguiam. Poucas semanas depois,Rony Meisler — fundador da Reserva e que já vinha vendendo ações — anunciou que deixaria a empresa. A saída já estava prevista,mas surgiram relatos de que as interferências de Birman na Reserva foram a razão. Meisler teria dito a interlocutores que “nem por todo o dinheiro do mundo continuaria trabalhando com ele”. (Procurado,ele não quis falar sobre sua passagem na Azzas).
‘Mea culpa’ a investidores
A debandada já soma ao menos nove executivos — todos com cláusulas de confidencialidade generosas. Foi simbólica a saída de Paulo Kruglensky,ex-CEO da Vivara que era responsável pela integração de culturas organizacionais,pouco depois da fusão.
Meisler era responsável pela área de vestuário masculino — sobretudo a Reserva — e foi substituído por Ruy Kameyama,ex-CEO da BR Malls e conselheiro da Azzas trazido pelo Soma. Sua chegada foi lida como sinal de que Birman estava disposto a ceder em alguns pontos a Jatahy,mas a tendência não se confirmou.
Em 2025,tornou-se pública a informação de que Birman e Jatahy já cogitavam divórcio. As ações afundaram na Bolsa,e a solução foi “fazer as pazes” publicamente,com direito a mea culpa a investidores — “houve um excesso de protecionismo que ambos foram fazendo”,disse Birman — e mudanças no conselho.
Uma proposta do novo presidente do conselho,Nicola Calicchio Neto,pelo menos contribuiu para desanuviar o clima. As marcas baseadas no Rio — o portfólio do Soma e a Reserva — iriam trabalhar na busca por sinergias. Kameyama e Jatahy tocariam o trabalho,chamado internamente de Projeto 021,mas apenas o primeiro teria interlocução com Birman.
Números em queda
Era,acima de tudo,uma necessidade financeira. A Azzas fatura e lucra menos. No primeiro trimestre deste ano,as receitas brutas foram de R$ 3,5,8% menores que um ano antes. Das quatro divisões da empresa,apenas o vestuário feminino — Farm,Cris Barros etc.,todas sob o guarda-chuva de Jatahy — registrou crescimento de vendas (de 4,5% na comparação anual) e representa mais de 40% do faturamento. Na divisão de calçados e acessórios,que inclui marcas como Arezzo,Schutz e Anacapri,a queda foi de 6,9%; no vestuário masculino (Reserva,Oficina e Foxton),o tombo foi de 3,2%; já na Hering,as vendas caíram 18,5%.
Quando chegou à Bolsa,em agosto de 2024,a Azzas valia R$ 10,4 bilhões; hoje,a cifra é de quase R$ 4 bilhões. É menos do que valiam a Arezzo (R$ 6,4 bilhões) e o Soma (R$ 5,4 bilhões) na época da fusão.
Embora executivo que trabalhou com os dois diga que “o problema é de personalidade,não de diferenças de estratégia intransponíveis”,pessoas próximas aos egressos do Soma criticam Birman por,supostamente,privilegiar faturamento em vez de rentabilidade e crescimento mais sustentado.
Segundo um interlocutor,o CEO realizou calls diárias de vendas com as equipes em dezembro,pressionando por descontos agressivos com o objetivo de destravar bônus aos executivos. Só que a estratégia teria praticamente esgotado os estoques da Farm — comandada por Jatahy —,que foi obrigada a fechar todas as suas lojas por dois dias em janeiro.
— Ao público,deram a desculpa de que foi porque as lojas venderam demais. Mas a razão foi uma estratégia desastrada — critica uma fonte da Azzas.
Gota d’água
Neste ano,mesmo com os contatos entre Birman e Jatahy se resumindo a reuniões de conselho,os pavios seguiam curtos. A gota d’água aconteceu em abril,com a saída repentina de Ruy Kameyama. Mais uma vez,a razão teriam sido desentendimentos com Birman. Em pelo menos duas ocasiões,Kameyama e Birman teriam batido de frente.
Em uma delas,o CEO fez reuniões sobre um possível spin-off da Farm,como forma de gerar valor para a Azzas,mas não convidou seu subordinado. Além disso,Birman mandou que Kameyama parasse de desenhar uma estrutura societária inspirada na Itaúsa,que criaria uma holding com os negócios das antigas Arezzo e Soma operando de forma independente sob seu guarda-chuva,como forma de reduzir as tensões. Kameyama não gostou e pediu para sair.
(Uma fonte próxima ao CEO nega desentendimento; Kameyama não respondeu).
Depois da partida de Kameyama,Birman determinou que a Reserva sairia do grupo de marcas “cariocas”. O estatuto da Azzas e o acordo de acionistas — elaborado em acordo com Jatahy — dão a Birman o poder para mexer nas divisões da empresa. Segundo interlocutores,Jatahy entendeu que o movimento “beirava a irracionalidade”,colocava em risco R$ 116 milhões em sinergias e processou o sócio. Segundo relataram advogados de Jatahy à Justiça,o plano previa levar a Reserva a Blumenau (SC),dentro da Hering.
Birman recorreu,dizendo que,tinha poder para isso. Mas acrescentou que o presidente do conselho,enviou e-mail em 12 de abril com ata segundo a qual “cinco conselheiros externos” discutiram e concordaram com a decisão.
O caso será decidido em arbitragem. Mas a disputa societária caminha para a discussão de cisão. A Azzas contratou o Itaú para assessorá-la. A contratação,antecipada pela coluna Capital,foi confirmada ao mercado ontem. A empresa diz que busca analisar oportunidades e que não há decisão.