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Artigo: Vik Muniz faz Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas

06-30 HaiPress

Rescaldo das Memórias': Vik Muniz transforma cinzas do Museu Nacional em arte — Foto: Divulgação

Foi uma tarde de grande emoção voltar ao Museu Nacional para a abertura da exposição “Rescaldo das memórias”,de Vik Muniz. Tenho,assim como tantos outros cariocas,uma relação íntima com este prédio e seu acervo. Aprendi a desenhar copiando os seus fósseis,habilidade transferida ao meu filho que a exercitava nos mesmos salões. Conhecia cada detalhe daquela construção... capitéis,balaustradas e entalhes. De tanto frequentar aqueles espaços,me arrisco a dizer que até suas manchas de mofo e de infiltrações me eram familiares. Marcas que não só contam,mas contêm o rico passado deste palácio,que já foi morada de reis e imperadores.

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Portanto,me recordo também,sempre com muita dor,da terrível sensação de avistar labaredas de fogo subindo alto naquele final de tarde de setembro,há oito anos,quando voltava de Petrópolis pela Linha Vermelha e intuí,imediatamente,que queimava o museu que eu tanto amava. Pois essa dor também ardeu no Vik,uma das mentes mais brilhantes e inquietas deste país. Paulista de nascimento,cidadão do mundo e carioca por adoção,que através do seu trabalho abriu as portas das mais importantes instituições do planeta,também tinha especial carinho por esta,o primeiro museu que conheceu,aos 8 anos,quando trazido ao Rio por seu pai.

Quem o conhece sabe que Vik não se emociona fácil,mas a destruição deste símbolo o sensibilizou. Passado o período forense,deu um jeito de se juntar às equipes de resgate e colocou a sua arte a serviço da memória. Resolveu criar uma série,cuja doação do resultado de suas vendas ajudou no custeio de parte significativa dos trabalhos de recuperação arqueológica do acervo,não coberto pelo seguro. É curioso imaginar o cenário de emergência encontrado pelo artista naquele trimestre final do ano de 2018... pesquisadores e arqueólogos garimpando resquícios dos mesmos objetos obtidos por arqueólogos de outrora,no interior do próprio edifício destinado justamente a exibir tal arqueologia. Pura metalinguagem. Curioso descobrir também que o incêndio revelou desconhecidas camadas históricas do prédio,hoje reveladas ao público em um primoroso trabalho de reconstrução e restauro liderado pelos escritórios H+F Arquitetos e Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano,com coordenação de Lucia Basto,do Projeto Museu Nacional Vive.

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Pois durante os últimos anos,Vik recriou imageticamente parte do acervo perdido de múmias,dinossauros,até mesmo o crânio de Luzia — um dos indivíduos mais antigos das Américas — com cinzas e fragmentos das próprias peças,muitos deles recuperados ainda em brasas. Tudo voltou agora,ressignificado,ao mesmo museu,em síntese de sua própria obra,conhecida por usar a arte como interface entre a matéria e a memória.

Não por coincidência,a mostra ocupa a Sala das Vigas,local de origem do incêndio,que foi mantida com suas paredes chamuscadas e vigas retorcidas,como que a evocar as dores nunca esquecidas. Não recuperar o edifício a um único momento histórico e integrar diferentes temporalidades com coerência e critério é decisão polêmica,incomum e acertadíssima dos responsáveis pelo restauro.

Materiais usados por Vik Muniz na mostra 'Rescaldo das memórias' — Foto: Ana Branco

Essa é uma das poucas exposições em que Vik mistura fotografias e objetos tridimensionais. São destaques as peças impressas em 3D,usando um amálgama de polímero com as próprias cinzas do objeto queimado que recriam,por exemplo,o gato mumificado,que fazia parte da coleção de egiptologia adquirida por D. Pedro I em 1826. Por sorte,grande parte do acervo já havia sido submetida a scanners e tomografias,o que os fez sobreviver em modelos digitais,graças à dedicação pivotal de profissionais como Sergio Azevedo,pesquisador da UFRJ,Jorge Lopes e Gerson Ribeiro,responsáveis pelo laboratório de Biodesign na PUC.

Estão lá também,ressuscitados,o estauricossauro e o pterossauro,icônicos representantes da paleofauna brasileira. É interessante raciocinar que,se muitos dos fósseis existentes exibidos nos principais museus de paleontologia do mundo são réplicas ou modelos em resina,podemos dizer então que aqueles recriados pelo artista são,talvez,ainda mais autênticos,por terem sido impressos por material que contém DNA original.

Raciocinemos novamente,desta vez com abstração... A mostra em cartaz é,portanto,puro rearranjo de átomos. Objetos que já foram,após séculos,reorganizados e reconstituídos no que hoje são,obedecendo às leis basilares que regem a química,a física e a biologia desde os primórdios. Vik Muniz,mais uma vez,bagunça a cabeça de todo mundo. Sempre foi mestre nisso...

Imbuído do poder de fênix que a arte lhe confere,Vik fez o impossível. Fez o importante acervo do Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas. Para surpresa e admiração de todos nós.

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