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Vik Muniz expõe no Museu Nacional obras feitas de materiais recuperados do incêndio: 'Catarse incrível'

06-30 HaiPress

Mostra de Vik Muniz na Sala das Vigas,no Museu Nacional — Foto: Divulgação

RESUMO

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A mostra "Rescaldo das memórias" reúne fotografias e esculturas criadas com cinzas e resíduos do acervo destruído. As obras ocupam a Sala das Vigas,local onde o fogo começou. A exposição faz parte das celebrações dos 208 anos da instituição científica. O público poderá visitar as mostras temporárias até o dia 30 de agosto deste ano. Pesquisadores e arqueólogos mapearam os escombros para recuperar os fragmentos utilizados pelo artista. A reconstrução completa do palácio histórico está prevista para ser concluída em 2029. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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Quando era criança,Vik Muniz veio de São Paulo com o pai visitar um tio no Rio,e conheceu alguns pontos turísticos da cidade,como o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Mas o que o artista,que completa 65 anos em dezembro,se lembra de fato foi a ida ao Museu Nacional,em São Cristóvão,Zona Norte da cidade. Com obras integrando o acervo de instituições como o Guggenheim e o Whitney,de Nova York; a Tate Gallery,em Londres; o Centre Georges Pompidou,em Paris; e o Reina Sofía,em Madri,Vik recorda a ida ao antigo Palácio Imperial na Quinta da Boa Vista como a primeira vez em que pisou num museu,uma das razões pela qual o incêndio que atingiu o prédio em 2018 o impactou tão fortemente.

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Ao ver as imagens do incêndio quando estava trabalhando em Zundert (cidade natal de Van Gogh,na Holanda),Vik procurou o museu para entender de que forma poderia colaborar para sua reconstrução. Daí nasceu a série “Museu de cinzas” (2019/2026),com obras criadas a partir dos restos da queima da estrutura e de itens do acervo,mostrada pela primeira vez em 2019 na galeria Sikkema Jenkins,em Nova York. Em maio,ele apresentou três obras na panorâmica “A olho nu” no CCBB do Rio,duas imagens reproduzindo a antiga fachada e o crânio de Luzia,o fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil,além da inédita “Tropeognathus mesembrinus” (2026),escultura que reproduz em tamanho real o fóssil de um pterossauro,instalada na rotunda. E,no dia 21,o artista finalmente apresentou as obras no próprio museu,com a inauguração da mostra “Rescaldo das memórias”,que reúne 11 fotografias e nove esculturas reproduzindo peças emblemáticas do acervo local na Sala das Vigas,onde o incêndio teve início,com o projeto de restauro optando por manter algumas das evidências da tragédia.

Vik Muniz na mostra 'A olho nu',no CCBB — Foto: Divulgação

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Trabalhando com as equipes do museu,Vik teve acesso a resíduos do incêndio,usados como elementos gráficos nas fotos e em material para as esculturas produzidas em impressoras 3D em parceria com pesquisadores do Laboratório de Processamento de Imagem Digital (Lapid/UFRJ).

— Quando criança,fiquei fascinado com o Museu Nacional,aquela coisa meio gabinete de curiosidades do acervo,algo de que sempre gostei. E museu é aquele lugar de onde você não sai com nada além das memórias. Parece que existe um fio que te conecta,você sabe que ele estará lá quando quiser voltar. Depois entendi por que o incêndio me pegou tão forte,por sentir que não poderia voltar àquele lugar da memória da infância — diz Vik. — Poder voltar ao museu com essa exposição foi uma catarse incrível. Foi bom poder ter as duas mostras,ali e no CCBB,em cartaz ao mesmo tempo,acho que são complementares.

'Bastidores da ciência'

Além de “Rescaldo das memórias”,o Museu Nacional inaugurou no dia 21 “Bastidores da ciência”,que aborda tanto os processos usados na recuperação dos acervos atingidos pelo incêndio quanto técnicas e práticas comuns ao dia a dia da instituição,a exemplo da modelagem digital,a taxidermia e as ilustrações científicas. Celebrando os 208 anos da instituição (completados no dia 6),as mostras,em cartaz até 30 de agosto,abriram a programação de exposições temporárias de 2026.

Rescaldo das Memórias': Vik Muniz transforma cinzas do Museu Nacional em arte

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Para a museóloga Thaís Mayumi Pinheiro,coordenadora das Novas Exposições para Reconstrução do Museu Nacional/UFRJ,é importante que o público frequente o museu mesmo antes da reabertura total,prevista para 2029,para acompanhar os processos de restauro e de recomposição das coleções,compreendendo a complexidade de cada etapa,e a razão da duração de cada uma delas.

— Só na abertura,passaram 3.500 visitantes pelo museu. É fundamental as pessoas verem que,mesmo quando estava sob escombros,o trabalho nunca parou. E que ele não termina com as exposições,como em outras instituições. Há toda uma produção científica realizada em paralelo à reconstrução — comenta Thaís. — Tivemos algumas dezenas de milhares de itens e lotes que foram recuperados,dependendo,claro,de sua materialidade. E apresentamos também as doações que vieram de outras coleções e instituições.

Na entrada da mostra “Rescaldo das memórias”,são exibidos tubos de vidro com alguns dos materiais recolhidos do incêndio,utilizados por Vik Muniz nas obras,com etiquetas indicando “Fósseis”,“Egito” ou “Luzia”. A identificação só foi possível,conta Thaís,servidora do Museu Nacional há 11 anos,com o envolvimento de toda a equipe.

— O trabalho foi liderado pelos arqueólogos e paleontólogos da casa,que são professores aqui. Todo mundo que conhecia o prédio ajudou a fazer o mapeamento do que estaria nos escombros,onde ficavam os fósseis,os arquivos de papel — detalha a museóloga. — Foi um processo doloroso,tive que lembrar do que estava na área de exposições,na minha sala. Tenho memórias do público aqui antes do incêndio,olho para uma parede chamuscada e sei o que estava ali. Mas é um sentimento agridoce,já que estamos retomando esse contato com os visitantes. Dá muita esperança,é simbólico ter as obras do Vik ocupando este espaço.

Vista geral da mostra 'Bastidores da ciência' — Foto: Ana Branco

O tema do incêndio há muito habita o pensamento de Vik. O artista conta que a abertura no Rio o fez reler os originais de um livro que vem escrevendo há mais de 20 anos,inspirado no dia em que foi visitar a mãe,telefonista da antiga Companhia Telefônica Brasileira,e acabou testemunhando uma das maiores tragédias da cidade de São Paulo.

— Minha mãe trabalhava na sede da CTB na Sete de Abril (rua do Centro de São Paulo) e,ao sair,vimos o incêndio do Edifício Andraus (em 24 de fevereiro de 1972) — conta Vik,explicando o critério na escolha do que seria reproduzido. — Quando comecei a série,não queria fazer obras que não tivessem sido perdidas. Por isso não fiz o (meteorito) Bendegó,um dos meus itens preferidos da coleção,junto da múmia do gato e da Luzia. Como elas foram destruídas,fizemos as esculturas. E a exposição ficou num bom tamanho,com um bom número de trabalhos. A mostra não é sobre a série,é também sobre aquele espaço,com as marcas do que aconteceu.

O artista diz que os trabalhos levam-no a refletir sobre como um resíduo material assume a forma simbólica daquilo que já foi o objeto na íntegra. E como algumas obras trazem,em sua composição,mais elementos originais do que o que estava anteriormente exposto,a exemplo do crânio de Luzia — por questões até de ordem ética,já que se tratava dos restos mortais de um ser humano,o museu exibia ao público uma réplica do fóssil,embora este também tenha se perdido no incêndio:

— A escultura tem as cinzas do crânio,é curioso pensar que um pouco da Luzia está,de fato,ali. É importante trazer essa materialidade de volta,ou vestígios dessa materialidade. O museu é o espaço de se reconectar com essa experiência física,presencial. Acho que existe um sentimento renovado disso entre as pessoas,essa vontade de ir além do digital.

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